A importância do sentimento de pertença na escola
03 Setembro 2026

O início de um novo ano letivo é habitualmente associado à organização dos horários, à apresentação das regras, à distribuição dos materiais e ao começo das aprendizagens. No entanto, antes de conseguir concentrar-se, participar, persistir perante uma dificuldade ou pedir ajuda, cada aluno precisa de perceber se aquele é um lugar onde pode sentir-se seguro, aceite e valorizado.

É aqui que o acolhimento e o sentimento de pertença assumem um papel essencial.

Acolher não significa apenas receber os alunos no primeiro dia de aulas. Significa criar, desde o início e ao longo de todo o ano, condições para que cada criança ou jovem possa pensar: “Conhecem-me. Escutam-me. Posso participar. Tenho algo para oferecer. Faço parte deste lugar.”


O que significa sentir que se pertence à escola?

O sentimento de pertença corresponde à perceção de que se é aceite, respeitado, incluído e apoiado pelas pessoas que fazem parte da comunidade escolar.

Não exige que todos os alunos sejam iguais, tenham os mesmos interesses ou pertençam ao mesmo grupo de amigos. Também não significa que nunca existam conflitos, desconforto ou dificuldades nas relações.

Pertencer é sentir que há lugar para a diferença e que, mesmo perante um erro, um conflito ou uma dificuldade, a ligação ao grupo não desaparece.

Um aluno pode conhecer os colegas há vários anos e, ainda assim, precisar de ser novamente acolhido. Durante as férias, as crianças crescem, mudam, vivem novas experiências e regressam com diferentes expectativas, receios, interesses e necessidades. Por isso, o reencontro também deve ser entendido como uma oportunidade para voltar a conhecer quem faz parte da turma.


O sentimento de pertença também influencia a aprendizagem

Aprender não depende apenas da capacidade de compreender ou memorizar conteúdos.

Para se envolver numa tarefa, fazer perguntas, experimentar uma estratégia diferente ou lidar com o erro, o aluno precisa de sentir alguma segurança emocional. Quando está excessivamente preocupado em perceber se será aceite, criticado, excluído ou ridicularizado, parte da sua atenção deixa de estar disponível para aprender.

A investigação tem associado um maior sentimento de pertença a melhores resultados académicos, desempenhando um papel importante no bem-estar, no comportamento e na aprendizagem dos alunos.

Os dados da OCDE mostram igualmente que os alunos que sentem maior pertença à escola tendem a sentir-se menos sozinhos e a estabelecer amizades com maior facilidade. A pertença não é, portanto, um elemento secundário da experiência escolar: faz parte das condições que sustentam o envolvimento, o bem-estar e a aprendizagem.

Isto não significa que uma atividade de acolhimento, por si só, garanta melhores resultados escolares. Significa que relações de confiança, ambientes seguros e oportunidades reais de participação ajudam a criar as condições necessárias para que a aprendizagem aconteça.







O acolhimento não pode ficar apenas dentro da sala de aula

Uma criança não vive a escola apenas durante as aulas. A experiência de pertença também se constrói nos corredores, no recreio, na biblioteca, no refeitório, nas atividades extracurriculares, nos momentos de entrada e saída e nas interações com os diferentes adultos.

Um professor pode desenvolver um excelente trabalho de acolhimento na turma, mas esse esforço perde força se, nos restantes espaços, o aluno se sentir invisível, excluído ou tratado de forma pouco respeitosa. Por isso, promover a pertença não deve ser uma responsabilidade exclusiva do professor titular ou do diretor de turma. Deve ser um objetivo partilhado pela Direção, docentes, técnicos, assistentes operacionais, famílias, alunos e parceiros da comunidade.

A Direção tem um papel essencial ao transformar a pertença num objetivo comum, e não apenas numa iniciativa isolada de alguns professores.

Algumas medidas simples podem fazer a diferença:

  1. Definir uma mensagem comum

Toda a equipa deve compreender o que significa acolher e que comportamentos tornam esse compromisso visível no quotidiano.

Cumprimentar os alunos, usar os seus nomes, escutar antes de julgar, explicar as decisões, reparar uma relação depois de um conflito e prestar atenção a quem permanece à margem são exemplos concretos dessa visão.

  1. Envolver todos os profissionais

Os assistentes operacionais, os profissionais do refeitório, a equipa da biblioteca, os técnicos e os responsáveis pelas atividades extracurriculares contactam com os alunos em momentos muito importantes. Incluí-los na reflexão e no planeamento permite criar maior coerência entre os diferentes espaços da escola.

  1. Observar os lugares menos visíveis

É importante analisar o que acontece nos recreios, corredores, casas de banho, filas, transportes e momentos de transição.

  • Onde surgem mais conflitos?

  • Quem fica habitualmente sozinho?

  • Que alunos parecem não saber a quem pedir ajuda?

  • Existem espaços ou rotinas que dificultam a participação de algumas crianças?

  1. Criar formas de escutar os alunos

Questionários breves, assembleias, caixas de sugestões, grupos de representantes ou conversas orientadas podem ajudar a compreender como os alunos vivem verdadeiramente a escola.

Escutar não significa aceitar todas as propostas. Significa considerar seriamente as suas perspetivas e explicar o que pode ou não ser alterado.

  1. Cuidar também das relações entre os adultos

É difícil construir um ambiente seguro para os alunos quando os adultos trabalham num clima de tensão, isolamento ou pouca colaboração.

Uma abordagem SEL inclui oportunidades para que os profissionais comuniquem, reflitam, cooperem e desenvolvam relações de confiança.

 


Estratégias práticas para aplicar nas turmas

O acolhimento não precisa de ocupar semanas inteiras nem de exigir atividades complexas. Pode ser integrado nas rotinas e nas relações de todos os dias.

  1. Aprender e usar os nomes

Ser chamado pelo nome transmite reconhecimento. Sempre que possível, os adultos devem procurar aprender rapidamente os nomes dos alunos e pronunciá-los corretamente.

  1. Criar oportunidades para conhecer e reencontrar

As atividades iniciais não devem limitar-se à apresentação dos alunos novos. Mesmo nas turmas que se mantêm, é útil criar oportunidades para descobrir mudanças, novos interesses, expectativas e experiências.

As perguntas podem ajudar os alunos a conhecer colegas para além do seu grupo habitual de amigos:

  • O que gostarias que os outros compreendessem melhor sobre ti?

  • Que qualidade valorizas numa pessoa com quem ainda não tens muita proximidade?

  • O que pode ajudar alguém novo a sentir-se incluído nesta turma?

  • Que atitude torna os intervalos mais agradáveis para todos?

  1. Variar pares e pequenos grupos

Quando os alunos escolhem sempre com quem trabalham, algumas ligações fortalecem-se, mas outras nunca chegam a começar. Variar os pares e os grupos, com sensibilidade e sem forçar exposições desconfortáveis, permite descobrir afinidades, praticar a cooperação e reduzir a formação de grupos demasiado fechados.

  1. Construir compromissos com a participação dos alunos

Em vez de apresentar apenas uma lista de regras, a turma pode refletir sobre questões como:

  • De que precisamos para nos sentirmos seguros nesta turma?

  • Como queremos ser tratados quando erramos?

  • O que podemos fazer quando alguém está a ser deixado de fora?

  • Como vamos lidar com os conflitos?

  • Como podemos pedir ajuda?

Os compromissos devem ser claros, possíveis de observar e revistos ao longo do ano.

  1. Criar momentos breves de escuta

Um check-in emocional, uma pergunta semanal ou alguns minutos de assembleia de turma podem ajudar os alunos a comunicar necessidades e a perceber que a sua voz é considerada.

Não é necessário obrigar todos a partilhar, e a participação pode acontecer oralmente, por escrito, através de escalas visuais ou de forma anónima.

  1. Reconhecer diferentes formas de contribuir

Nem todos os alunos participam da mesma maneira. Alguns falam facilmente; outros observam, organizam, ajudam discretamente, criam ideias ou escutam com atenção. Quando a escola reconhece diferentes capacidades e contributos, reduz a ideia de que apenas os alunos mais extrovertidos, rápidos ou academicamente bem-sucedidos têm valor para o grupo.

  1. Prestar atenção aos intervalos

O recreio é um dos contextos onde a pertença (ou a falta dela) se torna mais visível.

Pode ser importante criar zonas com diferentes possibilidades: movimento, jogos, leitura, conversa, desenho ou atividades tranquilas.

 



E quando um aluno parece não se sentir integrado?

Alguns sinais merecem atenção:

  • permanecer frequentemente sozinho;

  • evitar trabalhos de grupo ou momentos menos estruturados;

  • faltar repetidamente;

  • mostrar grande resistência em ir à escola;

  • reagir de forma defensiva a pequenos acontecimentos;

  • envolver-se em conflitos frequentes;

  • dizer que ninguém gosta dele ou que não faz falta ao grupo;

  • participar pouco por receio de errar;

  • tentar agradar constantemente para ser aceite.

Nenhum destes sinais permite, por si só, concluir que existe falta de pertença. No entanto, a sua persistência deve levar os adultos a observar, conversar e procurar compreender o que está a acontecer.

Perguntar diretamente “Porque é que não brincas com os outros?” pode aumentar o desconforto. Poderá ser mais útil começar por:

  • “Como têm sido os intervalos para ti?”

  • “Há algum momento do dia em que te sintas mais sozinho?”

  • “Com quem te sentes mais à vontade?”

  • “O que poderia tornar este espaço mais confortável?”

  • “Há alguma coisa que gostarias que os adultos percebessem?”

 
O papel das famílias

As famílias conhecem aspetos da criança que nem sempre são visíveis na escola. Podem ajudar a identificar receios, mudanças de comportamento, experiências anteriores, relações significativas e estratégias que facilitam a adaptação.

Ao mesmo tempo, a escola possui informação sobre a forma como o aluno participa, comunica e estabelece relações fora do contexto familiar. Quando estas duas perspetivas se encontram, torna-se mais fácil compreender e apoiar a criança.

A parceria deve ir além dos contactos sobre problemas ou resultados académicos. Algumas práticas importantes incluem:

  • estabelecer um primeiro contacto positivo;

  • perguntar às famílias o que ajuda a criança a sentir-se segura;

  • comunicar progressos, e não apenas dificuldades;

  • explicar as rotinas e as formas de pedir apoio;

  • disponibilizar formas acessíveis de comunicação;

  • ouvir as preocupações sem culpabilizar;

  • envolver as famílias na definição de objetivos comuns;

  • respeitar diferentes estruturas, culturas e realidades familiares.

Em casa, os adultos também podem apoiar a pertença através de perguntas que favoreçam a reflexão, evitando transformar o final do dia num interrogatório:

  • “Em que momento te sentiste mais confortável hoje?”

  • “Houve alguém que te ajudou?”

  • “Conseguiste conhecer algo novo sobre um colega?”

  • “Viste alguém que pudesse precisar de companhia?”

  • “Há alguma situação em que gostarias de ter ajuda?”

 

A pertença constrói-se ao longo do ano

As primeiras semanas são especialmente importantes, mas o sentimento de pertença não fica garantido depois de uma atividade ou de uma receção calorosa.

As relações mudam. Surgem conflitos. Entram novos alunos. Outros afastam-se. Há momentos de maior cansaço e períodos em que algumas crianças deixam de participar ou passam a sentir-se menos seguras.

Por isso, é importante rever regularmente algumas perguntas:

  • Todos os alunos têm pelo menos um adulto de referência?

  • Há crianças que permanecem frequentemente à margem?

  • Todas as vozes encontram formas de ser escutadas?

  • Os grupos mantêm-se demasiado fechados?

  • Os compromissos da turma continuam visíveis nas práticas?

  • O que precisamos de ajustar?

Não é necessário criar constantemente novas atividades. Muitas vezes, a continuidade de pequenos gestos ( cumprimentar, observar, escutar, incluir, reconhecer e reparar ) tem mais impacto do que uma grande iniciativa isolada.

Uma escola onde todos contam

Promover a pertença não significa retirar importância aos conteúdos escolares. Significa reconhecer que os alunos aprendem melhor quando se sentem seguros para participar, errar, experimentar e pedir ajuda.

Também não é uma missão de uma única pessoa. O professor pode abrir a porta da sala, mas é toda a comunidade educativa que ajuda cada aluno a sentir que existe um lugar para si na escola.

 
 
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