Relacionamentos positivos - o caminho para a aprendizagem
17 Junho 2023
"As relações pessoais são o solo fértil no qual cresce todo o progresso, todo sucesso, todas conquistas na vida real." - Ben Stein
A CASEL define as competências relacionais como a capacidade de estabelecer e manter relacionamentos saudáveis e apoiantes e de conseguir adaptar-se a ambientes com diversos indivíduos e grupos. Implicam ter a capacidade de manter uma comunicação clara, resolver conflitos, partilhar ideias, apoio ou defesa dos outros. Estão diretamente relacionadas com a bondade e empatia, cooperação, competência cultural, liderança, evitar a pressão negativa dos colegas e fazer escolhas positivas. Assim, é frequente ver estas competências relacionais associadas ao outro grupo de competências SEL, o da consciência social.
Todos queremos ter relações positivas e saudáveis com os outros.
Desenvolver habilidades sociais ajuda-nos a descobrir o que fazer e como ser quando estamos com pessoas diferentes e em contextos diversos.
Mas como podemos promover isso?
As memórias mais impactantes da infância e adolescência são, provavelmente, aquelas que estão associadas aos relacionamentos com os colegas, amigos, conhecidos ou outros. As relações entre pares desempenham um papel importante na vida das crianças e tornam-se ainda mais influentes à medida que entram na adolescência.
Há anos atrás, as crianças brincavam na rua e estabeleciam relações com os colegas de uma forma quase natural, tendo a oportunidade de treinar e desenvolver estas competências. Hoje em dia, as crianças ficam mais tempo fechadas em casa, falam e interagem com os amigos através das redes sociais e dos jogos online, pelo que a importância dos relacionamentos acaba por passar despercebida, até que as crianças apresentem problemas comportamentais.
A pandemia de covid-19 veio comprometer ainda mais os relacionamentos, levando a um maior afastamento social e a uma regressão neste tipo de competências sociais. No entanto, continua a não haver uma preocupação explícita em ensinar e treinar, reforçando a ilusão de que as crianças aprendem por si mesmas.
Nem todos os relacionamentos são fáceis e positivos, em especial para os mais pequenos que ainda estão a descobrir o que é a amizade, como fazer amigos e estão ainda a aprender a ter em conta o outro, para além de si mesmos.
Os adultos têm um papel fundamental no ensino e treino destas competências relacionais. A consciência social e as habilidades de relacionamento de um educador (formal ou informal) fazem a diferença junto dos mais pequenos nos próximos anos.
A pesquisa descobriu que as perceções dos educadores do jardim de infância sobre os seus relacionamentos com as crianças afetam os resultados ao nível do comportamento e do rendimento escolar dos alunos nos anos seguintes de escolaridade. Por outro lado, alguns estudos mostram que, se um professor tem uma visão negativa do seu relacionamento com um aluno, é menos provável que esse aluno tenha sucesso escolar e mostre um comportamento pró-social (gentil, prestativo) nos anos seguintes.
Deixamos algumas sugestões para ensinar e promover competências relacionais em contexto escolar:
- crie intencionalmente oportunidades para os alunos interagirem com quem normalmente não o fariam. Estimule os trabalhos de grupo e de colaboração. Os estudos mostram que alunos que integram abordagens de aprendizagem cooperativa estão mais predispostos a relatar um comportamento pró-social (gentil, prestativo) em relação aos colegas; enquanto os alunos que disseram gostar de competir eram significativamente mais propensos a agir de forma agressiva em relação aos colegas e tentar prejudicá-los.
- Envolva os alunos na discussão, incentivando-os a expressar os pensamentos e sentimentos relacionados com o tema. Isto dá a oportunidade de partilharem diferentes opiniões e de aprenderem a ver a perspetiva do outro, trabalhando construtivamente com as diferenças.
- Incentive discussões explícitas sobre empatia. Os alunos que são empáticos são mais cooperativos em sala de aula, têm melhores relacionamentos com os professores e envolvem-se mais na escola. O aumento da empatia também pode diminuir episódios de bullying e violência entre as crianças e torná-las mais gentis e inclusivas com os colegas.
- Trabalhe a capacidade para resistir à pressão do grupo
- Promova espaço para abordar a questão dos relacionamentos virtuais, falando sobre as regras de etiqueta virtual nos diversos meios.
- Promova um sentido de comunidade entre os alunos, por exemplo adotando as reuniões matinais em que os alunos se podem conhecer melhor através de perguntas simples ou partilhas pessoais. Uma forte comunidade colaborativa é a base de um ambiente escolar saudável. Segundo alguns estudos, um clima escolar positivo está associado a menor absentismo e violência escolar e maior conexão com a escola, motivação do aluno para aprender e melhor rendimento escolar.
- Use regularmente dinâmicas e atividades de grupo que trabalhem explicitamente a cooperação, a confiança, etc. Pesquisas mostram que relacionamentos positivos com colegas podem explicar até 40% do desempenho escolar dos adolescentes.
- Afixe posters com indicações explícitas sobre as regras de convivência positiva (exemplo: “Na nossa turma nós… escutamos uns aos outros”).
- Ensine ferramentas /estratégias para resolver conflitos. Uma revisão de literatura constatou que a resolução de conflitos e os programas de mediação entre pares podem levar a menos encaminhamentos para terapias, diminuição da violência e menores taxas de desistência e suspensão escolar. Os alunos que se envolvem nesses programas apresentam melhor rendimento escolar, uma perceção mais positiva do clima escolar, aumento do apoio social, autoestima e bem-estar e diminuição da vitimização, ansiedade e depressão.
- Modele comportamentos pró-sociais com os seus alunos. Mostre verdadeiro interesse por cada um deles. Reserve um tempo para conhecer, para conversar sobre questões que sejam importantes para os alunos, para além da matéria.
Sabemos que pedir aos educadores e professores que priorizem a questão dos relacionamentos não é tão fácil quanto parece, pois a maioria é treinada para “ensinar matéria”, ou seja, transmitir os conteúdos e fazer com que os alunos aprendam. As políticas educativas exigem cada vez mais que se foquem nisso, quase deixando de parte tudo o resto. No entanto, os resultados destes estudos lembram-nos de que os relacionamentos são uma característica central da aprendizagem do aluno. Desde a mais tenra infância, as relações estabelecidas vão influenciar a forma como cada um de nós entende e se envolve com o mundo.
Atreva-se a fazer a diferença! Seja um promotor de competências relacionais e contribua para a aprendizagem mais positiva e consistente.